Por que decidi escrever isto
No começo da minha carreira, na AmBev, eu passava a semana hospedado numa cidade do interior, perto da revenda onde trabalhava. Estava tentando me encaixar num molde: ser o vendedor mais duro e disciplinado que eu imaginava que esperavam de mim.
O que me tirou disso não veio da psicologia. Veio do marketing, que eu estudava na época.
Posicionamento tem uma lógica simples: uma marca não tenta ser tudo para todo mundo. Primeiro entende o que realmente tem a oferecer e, então, decide a quem aquilo serve. Percebi que eu estava fazendo exatamente o contrário: tentando me encaixar num perfil sem antes olhar para o que eu tinha de verdade.
A pergunta que o marketing me ensinou a fazer sobre produtos era a que eu não estava fazendo sobre mim: o que aqui é real e para o que isso serve? Conhecer antes de decidir.
Comecei a estudar assessment e o trabalho foi me levando de vendas para algo mais próximo de ajudar pessoas a entender o próprio perfil. Por isso, pedi demissão.
Fui fazer mestrado em psicologia organizacional em Columbia. Foi lá que encontrei a fonte do incômodo que deu origem a esta newsletter. Existe um corpo de evidências bastante sólido sobre comportamento nas organizações: o que prevê desempenho, o que influencia retenção e onde a nossa intuição costuma errar. E ele é muito mais científico do que a fama de “coisas de RH” faz parecer. O problema é a distância entre essa evidência e o que fazemos no dia a dia.
De volta ao Brasil, passei pela consultoria e saí dela com uma constatação: muitas vezes, o relacionamento pesa mais do que o conhecimento. A evidência que contraria pode perder espaço para a opinião que confirma o que o cliente já pensa. É um jogo que recompensa agradar em vez de acertar.
Vi a mesma distorção no RH, e foi o que me levou a empreender em tecnologia.
A aposta era simples: um método científico para tomar decisões sobre pessoas poderia chegar mais longe dentro de uma ferramenta do que na boca de alguém tentando convencer um de cada vez.
O primeiro produto que construímos nasceu dessa ideia: uma bateria de assessments feita para prever desempenho da melhor forma possível, combinando os métodos que a literatura aponta como mais preditivos.
Recrutamento e seleção foi o primeiro terreno, e talvez seja o melhor exemplo da distância que quero discutir aqui.
A distância, num exemplo
A ciência sobre seleção é sólida, mas a prática muitas vezes vai na direção oposta.
Comece pela métrica. O número que mais manda no recrutamento é o SLA: quanto tempo leva para fechar a vaga. Ele existe por um motivo, vaga aberta custa caro. Mas repare no que ele mede: velocidade, não qualidade. Se a pessoa vai performar ou permanecer, o SLA não pergunta.
SLA mede
Velocidade
SLA ignora
Performance
E isso é especialmente caro porque a seleção é o momento de maior alavanca sobre o capital humano. Acertar na entrada custa muito menos do que tentar corrigir o encaixe depois.
O resultado é um desenho de cabeça para baixo: colocamos o menor rigor bem no momento de maior retorno.
Junte isso ao jeito como o perfil da vaga costuma nascer. O gestor descreve, muitas vezes no feeling, quem seria a “pessoa certa”, e o processo corre atrás disso. Quando um método estruturado entra, costuma ser visto como fricção: uma etapa a mais que pode fazer perder candidatos.
O que se vê na prática é quase o contrário. Fora um ou outro que acha que a empresa tinha obrigação de chamá-lo pelo currículo, a maioria dos candidatos prefere ter a chance de mostrar quem é a ser cortada por uma linha de CV. O que se descarta como atrito é, para quase todo mundo, uma oportunidade.
Um exemplo que deixa isso claro: por que o assessment não entra, muitas vezes, já na triagem?
De um lado, temos uma informação quantitativa, escalável e com validade conhecida. Do outro, a leitura de um currículo por um recrutador, que todo mundo sabe prever pior. Ainda assim, escolhemos o currículo. Não porque a informação melhor não esteja disponível, ela está à mão. É uma questão de crença.
Informação quantitativa, escalável e com validade conhecida.
Leitura de um recrutador, que todo mundo sabe prever pior.
E aqui preciso de uma ressalva, porque é fácil confundir esse argumento com o oposto do que eu penso. Defender método não significa defender mais burocracia, e o RH, convenhamos, já tem fama de sobra nesse quesito.
A requisição de vaga que vira um formulário interminável, onde o gestor precisa detalhar a descrição do cargo linha por linha antes de qualquer coisa andar, não é método. É burocracia se passando por método. E engana justamente por isso: como exige esforço e preenchimento, dá a sensação de rigor. Mas exigir formulário não é o mesmo que exigir evidência. Um mede a paciência do gestor; o outro prevê desempenho.
Método, aliás, costuma pedir menos rigidez, não mais. Se aparecer um candidato muito acima da média, um pouco fora da descrição, pode fazer mais sentido considerá-lo do que escolher alguém perfeitamente aderente ao papel, mas sem potencial.
Boa parte do que chamamos de processo é, no fundo, controle vestido de critério. E controle não prevê nada.
O conceito que fecha a porta
Existe um nome para boa parte dessa resistência: psicologia implícita. É a teoria informal que cada um de nós carrega sobre como as pessoas funcionam, um modelo intuitivo de personalidade e comportamento que usamos o tempo todo, quase sempre sem perceber que é uma teoria.
Uma comparação deixa o problema claro. Ninguém acha que sabe, de cabeça, qual estrutura é necessária para construir uma ponte. Ninguém tem uma teoria intuitiva de como funciona um circuito eletrônico. Mas todo mundo tem uma teoria sobre gente: sobre quem é esforçado e quem não é, quem é inteligente, quem tem alto potencial. A razão é simples. Todos nós somos seres humanos, então todos carregamos, o tempo todo, uma ideia de como os seres humanos funcionam. Ninguém é uma ponte, então ninguém se sente autoridade em pontes. Já em gente, todo mundo se sente.
Daí vem o problema na seleção. Se cada gestor sente que já entende de pessoas, um instrumento validado não chega como informação melhor. Chega como burocracia: uma etapa que atrasa o que a intuição, supostamente, já resolveria sozinha. A psicologia implícita não rejeita a evidência porque discorda dela. Ela faz a evidência parecer desnecessária.
Isso aparece o tempo todo, com uma naturalidade que assusta:
Comigo é o seguinte: o candidato senta na minha frente e eu já sei.
Gosto de quem pratica esporte.
Se a pessoa fez tal coisa, para mim já era.
São frases ditas com a confiança de quem enuncia um fato, quando estão enunciando um palpite.
Por isso o obstáculo quase nunca é a falta de dados, mas a convicção de que eles não são necessários. Os dados podem ser produzidos, inclusive com estudos de validação usando os próprios números da empresa, conectando perfil a desempenho, retenção e outros resultados.
Mas antes de convencer alguém com dados, é preciso vencer a crença de que já sabemos o suficiente sem eles.
O que esta newsletter se propõe
A distância que me interessa não é entre o RH e alguma perfeição impossível. É entre o que já se sabe sobre pessoas nas organizações e o que se decide, na prática, na hora de contratar, promover, desenvolver e demitir.
É uma distância larga e, na maior parte do tempo, invisível, porque a intuição que a mantém aberta, por dentro, parece experiência.
Escrevo há dez anos vendo essa distância de perto. E cada vez mais acho que ela pode ser menor do que parece, se pararmos de tratar intuição como evidência e começarmos a usar o que a ciência sobre pessoas já tem a oferecer.
Esse tipo de conteúdo, sério e aplicável, ainda é raro em português. E é essa lacuna que quero preencher.
A cada duas semanas
Sem promessas de transformação, e sem deixar o adjetivo fazer o trabalho que deveria ser do raciocínio.
A referência
O ponto de partida sobre recrutamento e seleção é o trabalho de Schmidt e Hunter (1998), que organizou o quanto diferentes métodos de seleção conseguem prever o desempenho no trabalho. A principal contribuição para a prática é simples: métodos estruturados preveem melhor do que a leitura de currículo e do que a impressão de uma conversa informal.
Mas parar em 1998 seria contar só metade da história. Uma reanálise de Sackett, Zhang, Berry e Lievens (2022) revisou os números ao corrigir um problema estatístico dos estudos anteriores. A entrevista estruturada ganhou força na comparação, enquanto a validade dos testes cognitivos ficou mais modesta do que a cifra que se repetia havia décadas, ainda que continuem entre os métodos mais fortes.
E a discussão continua. Numa sessão da SIOP, em 2023, ouvi Michael Campion lembrar que comparar métodos também exige considerar a qualidade dos estudos que sustentam cada um: a base de evidências não é igualmente robusta para todos. Vale uma palavra sobre a SIOP para quem nunca ouviu falar dela: é a principal associação de psicologia organizacional do mundo, dedicada a aproximar ciência e prática. Sou membro desde 2013 e não perdi um congresso anual desde então.
E isso é, na verdade, o mais interessante. A ciência de pessoas não é uma tabela que se fecha de uma vez. Ela revisa, discute e corrige os próprios números. Mesmo assim, a conclusão de fundo continua de pé: métodos estruturados preveem melhor do que a intuição. É essa diferença que separa uma conclusão científica de um palpite.
Nota do momento
De tempos em tempos aparece uma ferramenta de IA prometendo resolver a seleção: agentes que entrevistam por vídeo ou por mensagem, que leem currículos em segundos e devolvem um ranking de candidatos. O discurso de venda é quase sempre o mesmo: tirar o viés humano da decisão.
Vale perguntar em cima de quê essas ferramentas aprenderam. Boa parte é treinada no histórico da própria empresa: quem foi chamado para entrevista no passado vira a definição de “bom candidato”. Aí o sistema aprende o padrão antigo, vieses inclusive, e passa a repeti-lo em escala, agora com uma cara de objetividade. O viés não sumiu foi automatizado. E o viés automatizado é mais difícil de corrigir que o humano, porque some da vista e ainda ganha o ar de neutro que todo número tem.
Não é uma objeção à IA na seleção. Ela pode padronizar etapas, reduzir inconsistências e trazer ganhos reais. É uma objeção ao critério.
A ferramenta só melhora a decisão se estiver apoiada em algo mais confiável que o histórico da própria empresa: evidências sobre o que prevê desempenho e, idealmente, uma validação feita com os dados daquela organização.
A tecnologia nunca foi o problema.
O problema é automatizar a intuição e chamar isso de ciência.
