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Olá, RH!

Um mapa para saber contra o que você está trabalhando

Na edição passada, deixei uma pergunta para descobrir se um processo de RH tem propósito ou se só está rodando por rodar: isso mexe o ponteiro de performance, de retenção ou de engajamento?

Há alguns anos venho usando um jeito de organizar a área de RH que não é bem um modelo de gestão nem um modelo estatístico. Trata-se de um mapa do que o RH faz e para onde cada ação deveria mirar. E a necessidade que me levou a ele foi de validação, eu queria conseguir olhar para qualquer coisa que o RH faz e responder duas perguntas:

1. Que resultado essa ação vai mover?

2. Que evidência existe de que essa ação move o resultado esperado?

Sem esse mapa, cada ação de RH fica solta, justificável por qualquer narrativa, como falei anteriormente. Com ele, cada ação tem um lugar e um alvo. Vou percorrer, em seguida, as três camadas desse mapa.

Preditores
estimam, não intervêm

Recrutamento e seleçãopredição na entrada
Gestão de talentospredição na movimentação

Finalísticas
o que o RH existe para mover

Performance
Retenção
Engajamento

Interventores
agem sobre a distância entre a predição e o alvo

Desenvolvimento
fecha lacuna de habilidade
Recompensa
destrava engajamento
Design organizacional
move o próprio alvo

↓

Liderança
opera os interventores acima

As finalísticas: os três resultados

Vamos começar pelo fim, pelo que o RH existe para produzir. Quando você olha a pesquisa séria sobre gente, quase todo estudo cruza suas variáveis contra um de três resultados.

PerformanceRanking do gestor, atingimento de meta, algum resultado final.
RetençãoMedida como turnover e suas variações.
EngajamentoQuando há dado para medir.

Esses três são as finalísticas. Tudo o que o RH faz deveria, no fim, mover um deles. As pessoas precisam entregar, precisam ficar na empresa e precisam estar bem e engajadas.

Vale refletir sobre o engajamento, porque tratá-lo como um fim, e não como um meio, é uma escolha.

Do ponto de vista estatístico, o engajamento prevê bem os outros dois: gente engajada tende a performar mais e a sair menos. Por essa lógica, ele seria um degrau do caminho de performance e retenção, e não um destino.

Engajamento
→
Performance
Retenção

Se considerar, porém, o engajamento apenas como um meio para reter, o objetivo do RH seria que a pessoa não saísse, por qualquer motivo, inclusive por falta de opção. E manter alguém preso por falta de alternativa, ou tirar performance na base do controle, são objetivos pobres e frágeis.

O que se quer é que a pessoa fique porque quer, e entregue porque se sente bem na sua posição.

O engajamento vale por si, não só pelo que ele prevê. Por isso, eu classifico entre as finalísticas.

Os preditores: dois momentos de aposta

Se as finalísticas são o destino, a segunda camada é onde você tenta prever se vai chegar lá. Chamo esses de preditores, e o que os define é que eles não intervêm em ninguém. Não mudam a pessoa, e só juntam evidência para estimar o impacto nas três finalísticas.

São dois blocos, e o interessante é que eles são o mesmo movimento em momentos diferentes.

Recrutamento e seleçãoQuando você contrata, tudo o que faz, o método, o instrumento, a entrevista, tem o único objetivo de prever se aquela pessoa vai performar, se vai ficar na empresa e se vai permanecer engajada. É uma aposta sobre o futuro, feita com a informação que você tem na entrada.
Gestão de talentosAqui uso o termo no sentido de movimentação, não de desenvolvimento. Quando você promove alguém, ou muda a pessoa de área, está fazendo o mesmo que numa contratação — juntando evidência para prever se, na nova posição, ela vai performar, ficar na empresa e permanecer engajada. As três perguntas são iguais, só o que muda é que a pessoa já está dentro.

Repare no que essa simetria mostra. Promover é a mesma classe de decisão que contratar: uma aposta sobre desempenho futuro em um contexto novo.

Contratar  =  Promover

A prática, no entanto, trata as duas de formas opostas.

Seleção
Ao menos às vezes, ainda se usa método.
Promoção
Quase sempre se decide na impressão, no “ele merece”, no “está na hora dele”.

Se os dois são o mesmo ato, não faz sentido um ter rigor e o outro não. O mapa deixa essa incoerência à vista só por colocar os dois lado a lado.

Os interventores: agir sobre a distância

As duas primeiras camadas preveem. A terceira age. Os interventores são o que você faz para mudar a relação entre uma pessoa e as finalísticas depois que a predição já foi feita.

O jeito mais claro de entender é pensar na distância entre a predição e o alvo. Digamos que a evidência aponte que uma pessoa não vá performar tão bem em determinada função, porque lhe faltam certas habilidades. O interventor é o que se pode fazer para fechar essa distância. Diferente das outras camadas, esta não é uma lista fechada, mas há três que eu sempre destaco.

DesenvolvimentoÉ o interventor mais direto. Falta habilidade ou conhecimento, e um bom programa de treinamento aumenta a chance de a pessoa chegar às finalísticas.
RecompensaMenos óbvio e muitas vezes decisivo. Às vezes a pessoa encaixa bem e deveria engajar, mas não engaja, porque a forma como está sendo remunerada ou reconhecida não ajuda. O encaixe estava certo, o que travava era o incentivo.
Design organizacionalO interventor mais sutil. É mudar o escopo de uma função, ajustar as metas, redefinir o que se espera daquela pessoa. É o único interventor que não mexe na pessoa nem no incentivo, e sim no próprio alvo. Às vezes, alguém que não funcionaria na função como está desenhada, poderia funcionar muito bem em um escopo ajustado.

E há a liderança, que trato menos como um interventor à parte e mais como o meio pelo qual os outros acontecem. É o gestor que recompensa a coisa certa, que ajusta o escopo, que viabiliza o desenvolvimento, além dos efeitos mais intangíveis do perfil de quem lidera sobre o engajamento do time.

A liderança opera a camada inteira.

Uma diferença importante entre esta camada e as anteriores: aqui o chão é menos firme.

Nos preditores, a lógica é limpa e dá para checar. Você tem uma estimativa e um resultado, e depois compara. Nos interventores, é mais difícil determinar qual ação específica moveu um resultado específico, estabelecer com segurança uma relação de causa e efeito.

Preditores
Interventores

Sabemos que treinamento, recompensa e design movem o ponteiro. Quanto impactam e em qual contexto, é bem mais incerto e exige leitura de contexto.

Por que o mapa serve

Uma vantagem de olhar o RH assim é que o próprio mapa mostra onde a evidência é forte e onde ela é fraca, em vez de tratar tudo com a mesma falsa certeza.

Ele diz onde você pode confiar em número, nos preditores, e onde vai ter que decidir com julgamento, nos interventores, sabendo que está decidindo com julgamento e algum nível de inferência. Não elimina a incerteza, mas mostra onde ela está.

Preditores
confiar em número
Interventores
decidir com julgamento

“Isso mexe com performance, retenção ou engajamento?”

— Isto é um preditor ou um interventor?

— Está agindo sobre qual finalística?

Não deve ser uma pergunta solta, e sim uma checagem de posição.

Um processo que não encontra lugar no mapa provavelmente está rodando à toa.

A referência

Em ciência de pessoas, as relações entre variáveis são reais, porém modestas. Uma correlação de 0,30, que um engenheiro descartaria como ruído, é um efeito forte em psicologia organizacional.

0,30
ruído para um engenheiro
→
efeito forte
em psicologia organizacional

E o grande x da questão é que muita gente aplica a régua errada: vê 0,30, pensa “isso é fraquíssimo” e joga fora uma informação que era, para o padrão da área, valiosa.

O trabalho que colocou números nisso é o de Bosco, Aguinis e colegas, no Journal of Applied Psychology.

BA
Bosco, Aguinis et al. · 2015
Journal of Applied Psychology

Eles reuniram mais de 140 mil correlações de décadas de pesquisa organizacional e montaram um mapa do que é típico, do que é grande e do que é pequeno dentro da área. A descoberta foi que a maior parte do que estudamos em gente vive numa faixa que, em outras áreas, pareceria decepcionante, e é por isso que precisa ser lida no contexto certo.

E esse trabalho virou algo maior, o metaBUS, um projeto do mesmo grupo que reúne mais de um milhão de correlações da literatura e deixa você rodar uma meta-análise na hora entre dois conceitos, vendo a magnitude média da relação e os estudos de origem.

140 mil
correlações · Bosco & Aguinis (2015)
1 milhão+
correlações · metaBUS

Tenho um apreço pessoal por ele: assisti à sessão em que o conceito foi lançado, numa SIOP em Honolulu, em 2014, uma sala quase vazia num sábado, sem nem imaginar que aquilo viraria a maior base de efeitos da área.

O site já está no ar (metabus.org, precisa se registrar), e vale muito a visita. Dá para consultar a magnitude das relações entre as variáveis e, melhor, chegar aos artigos que estão por trás de cada relação. É, talvez, o mais perto que temos hoje de um mapa do que a ciência de pessoas já conseguiu medir.

E, para mim, tem um valor enorme por ser o antídoto mais direto contra decidir no achismo por não saber o que a evidência já sabe.

Obrigado,

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